terça-feira, 13 de março de 2012

Minha CARTA AO TOM 2004

CARTA AO TOM 2004 (Pedro, Pássaro Distante)

Lua que entre o meu Sol se intromete
E para os meus sonhos cobra frete
Com receio de voos especiais,

Esses que levam meu corpo com vaidade
Para junto da tal eternidade
Onde brilha Vinícius de Moraes.

Mas o famoso poeta não queria
Afastar a letra da melodia
Desse Tom que a estrela não esqueceu.

Lembrando os sons e as cores de aquarela,
Escondendo a tristeza desta tela
Encobrindo-a num véu ou cobertor.

É meu amigo, perante a gentileza
do poeta amado nesta mesa
É preciso lembrar o seu valor.

domingo, 11 de março de 2012

Mar do Outro Lado (Pássaro Distante)

Mar Do Outro Lado (Pássaro Distante)

Se eu pudesse retirar esta saudade
Dos confins do meu olhar emudecida
E te a desse, embrulhada na vontade,
Para sentires como anda a minha vida...

Se eu pudesse dominar o meu lamento
Sem as notas deste acorde angustiado
Que esvoaça abafado pelo vento
E não sopra junto de quem está calado.

Se eu pudesse mostrar-te este olhar ausente
E o perfume dum tal corpo arrastado
Para o cais que não recebe sorridente
O silêncio de quem seja abandonado.

Se eu pudesse viver anestesiado
Pelo tempo que durasse a tua ausência
Ou presença nesse "mar do outro lado"
Que se agita ao pé de ti com veemência.

Se pudesse... mas não posso interferir
Com a corrente, prepotente, do destino
Que te prende na vontade de partir
E afoga o teu sonho de menino.             

                           
Pássaro Distante homenageado em: http://www.fotolog.com/esanchez/27649413/
On March 05 2008

quarta-feira, 7 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Lembrando Tom Jobim declamando Vinícius de Moraes

Meu Vinícius de Moraes
Sinto falta de você
Quanto mais o tempo passa
Mais eu gosto de você.

Cadê o meu poeminha?
Cadê? Meu poeta, cadê?
E morro neste piano
Com saudades de você.

(interpretado por Tom Jobim)

sábado, 3 de março de 2012

Cera ousada (Foto de Chris Ramos)


Sou a cera que se derrete nessa mente agitada
com a qual se torna cúmplice numa ousada caminhada.
Do teu brilho vejo ideias, derramadas pela estrada
com destino à tua alma, ensejo para nova vaga.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Agarra-me esta noite (Arte digital de Chris Ramos)

Vermelha, ou sofrimento,
a mancha abraça o calhau,
movediça como o vento,
agreste como essa nau,
desliza neste momento.

Aguarda a água do mar
ajudada pela maré,
depois de muito penar
pretende banhar-se da fé
que um dia não soube guardar.

Calhau duro e teimoso;
Jovem? Ou principiante,
que, deveras desgostoso,
desiste ao primeiro instante
em tom cerimonioso?

Tão intensa esta espera
como quem lê um soneto.
No branco da atmosfera
vê as marcas do esqueleto
da pegada que trouxera...

Na marcha da maresia,
num compasso sem maestro,
numa estrofe sem poesia,
numa escrita de ambidextro,
sinto os sons da agonia.

Sinto o peso do calhau
e de todo o desconforto,
sem abrigo ou chão de pau
que acolha este pé morto
de esperar por tua nau.

Mulher dura e egoísta,
sedenta do verbo ter,
que desrespeita o artista
e a vontade de viver
numa harmonia prevista.

De tanta espera me canso,
pois não há eternidade
que acalme o balanço
dessa tal ansiedade.
Assim, neste mar, me lanço.

Levo "A Valsa do Adeus",
outra obra do Kundera,
a fronha dos olhos meus,
a herdeira de quem gera
 e protegida de Deus.

Agarra-me esta noite.
Amanhã já será tarde
pois, depois de tanto açoite,
no meu peito já não arde
 a paixão que me afoite.

É, pois, a marca do tinto
nesse calhau espalhada
por quem era tão faminto
pela tua madrugada
e, agora, nada sinto.

Levantei-me dessa base
quando vi que era ferro
e passei para outra fase
que chamava o meu berro,
na qual não há quem se case.

Onde estão as tuas flores?
Caiem secas, na varanda,
como caem os amores
submersos a quem manda
sem respeito aos odores.

Pode ser que ressuscitem,
as flores que não cuidei.
Elas talvez se agitem
ao dizeres: "aqui del Rei!"
E em "formatura" fiquem.

Fujo de novo convénio
ao qual ganhei crispação.
Não é preciso ser génio
para saber dizer: não!
Afinal, outro milénio!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Oração à Musa-Flor (Foto de Chris Ramos)



Do piano em que me viste surgem as rosas preenchendo o nosso amor, de um modo completo, indelével, delicado e permanente.

Pelo teu amor, peço, voluntariamente, que os espinhos das rosas marquem o meu corpo, para que nada aconteça ao teu Ser.

Os meus acordes em Lá menor, que sublinham a minha humildade face à Musa-Mor, altiva e distante, ecoam pelo Cais do Pensamento, onde a maresia insiste em castigar a minha profunda solidão.

 Descem, tais acordes do lá menor, de meio-tom em meio-tom, até chegarem ao Fá, enfim, ao Fado de uma vida absolutamente consciente de um corpo localizado onde a alma não devia estar.

Tal como os nossos desencontrados caminhos... Dir-me-ias: se os invertidos são aceites como a nova "classe dominante" (em estilo "metrosexual de maçã reineta") , esta inversão desalinhada do corpo e do espírito não deveria ser considerada... normal? Não é. Seguramente. Para mim e para ti.

Ambos sabemos que haverá, algures nesta dolorosa caminhada, o tão ansiado ponto de encontro, no qual, retemperada das dores físicas e psicológicas, terás a disponibilidade para virar para uma outra página da tua iluminada vida e seguir em frente, de mãos dadas, serenamente e... em paz.

Brindemos, pois, à paz, a nós e ao futuro.

Ergo um copo de vinho tinto e coloco-o sobre o piano, onde, desafinado, esboço mais uns acordes que transformam qualquer poema numa singela oração pelo teu bem-estar...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Flor musical (foto de Chris Ramos)



Poder vencer o meu Fado
Mostra ser tarefa ingrata
Pois quem vive no pecado
Não merece a Concordata.

Mas para quê a Igreja,
perdida de humildade?
De sermão, velho, boceja:
Burguesa da Nova Idade.

"Das pétalas surgem notas,
uns bálsamos musicais.
Elas não trazem batota
saos momentos especiais.

São notas de nostalgia
que consigo libertar
do pólen da agonia
que acompanha o meu pensar.

Uma pauta de Jobim
mostrará "Insensatez"
de um passado sem fim,o
u de uma "Regra Três"?

Por aqui vês o dilema,
escrito na "Bossanova",
qual "Garota de Ipanema"
que deite esta flor na cova...

Estar sem ti, não será certo.
Sou a planta isoladado
 teu Ser, de Mar Aberto:
fugaz maré dedicada...

Se atravessa a corda bamba
e vai banhar-se no Brasil
não resiste a dançar samba,
regressando ao juvenil.

Pobre Idade! Pareço alma penada
com camadas de alcatrão
escaldado, na estrada,
sem qualquer contemplação.

O cimento que me cerca,
ajudado por ruído,
reforçará minha perca:
O sabor dum sustenido.

Desta vida sei de cor
o suor das minhas gentes
traduzido em lá menor
e estratégias indecentes.

A melodia que exalo
e acompanha o cheiro
compensa tudo o que calo
neste leito de ribeiro.

Mais lamento não poder
ouvir os meus próprios sons.
Estou a ensurdecer
Quando ouço esses tons:

Foz de queixas repetida
se deveras dissecadas.
Fossem as vidas... vividas
e não tão vitimizadas...

Se do dia vejo o breu
- digo isto sem rancor... -
é sinal que o apogeu
abandonou nosso amor...

Outra pauta de Jobim
que vá buscar ao "baú"
é defesa, para mim,
a qualquer Ser, como Tu.

Se quiseres saber mais,
do teor dos nossos vícios,
para quê ler só jornais
se tens os meus "Sete Ofícios"?

Posso ser ave, ou flôr,
nuvem, lua ou o mar.
Mas se queres meu amor
tens de deixar respirar...

Eu preciso respirar...
Bem preciso respirar!...
Não consegues enxergar?!
É preciso enxertar?"

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Caminhos proibidos (foto de Chris Ramos)


Por caminhos sinuosos
Apesar de olhar o mar,
E momentos tortuosos
Que afectam teu bem-estar,

Vou escalando esta montanha
... Sob efeito violeta
E alguma artimanha
D' alguém que toque a sineta.

Somos cabras do rebanho
E bodes de mau pastor
Ávido dos seus bons banhos
Impregnados de rancor.

Por entre essas pedras soltas
Circulam as falsidades
Que fazem orelhas moucas
Às nossas fragilidades.

Mar azul da aparência
Em que espelho te revês?
No céu da clarividência
Ou na cama do marquês?

Somos carne para canhão,
No leito desses doutores
Que, da vil governação,
Não distinguem os pudores.

Nos caminhos proibidos
Por varões irregulares
De madeira, são sortidos
Os pruridos dos teus pares.

Quem, outrora bestial
Por fazer aquele favor,
É jogado ao matagal
Sem clemência, nem pudor.

Eis aqui, no precipício,
Postergado de razão,
Quem cultivou frágil vício
E caiu na tentação.

No momento, duma hora
Em que o Sol não vai nascer
É julgado, sem demora:
Condenado a morrer!"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Somos "carne para canhão", desde o ventre até à morte (foto de Chris Ramos)




As gotículas de suor que invadem do teu peito
são resquícios do meu amor, eternamente insatisfeito.
Daí que esse recanto, onde partilho as ilusões,
humedeça permanentemente, ávido de tentações.

... Mas da quimera bombardeada com a tragédia das ribeiras
Percorres, com lágrimas de resistência, o trilho das ladeiras.
Corpo transformado em porto de consolo e de abrigo,
quando te chego, quase morto, sem noção daquele perigo.

Com respeito sinto o som do lamento da ribeira.
"Ipiranga do entulho", da montanha à cabouqueira.
Som de pedra chora as mortes, num canto de amargura:
O calhau é pesadelo que nos leva à loucura.

O vermelho é a raiva da tragédia dos cifrões;
"Patos bravos" estão contentes com mais uns euromilhões.
E voltamos à dimensão desta nossa pequenez:
As galinhas vão ao grão, quando falta a lucidez.

Vão ao grão! Vão ao grão! Em benesses de má sorte.
Somos carne para canhão, desde o ventre até à morte.


Mais fotos da autora in:

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O verde bem resiste... (Fotografia de Chris Ramos)



De entre o castanho "normal",
que sufoca as nossas vidas,
inócuas situações que oscilam
pela esfera do pensamento único,
e tentam impor-nos um estilo de pensar,
de agir e de viver,
surge,
afinal,
qual esperança verdejante,
um leão de espírito,
de acção
e de verdade,
ainda que queimado nas bordas,
pela acção da "moral social",
determinado a inverter aquele caminho
que nos condena a um cruel definhar.

Podias estar mais queimado,
mais escondido de ti próprio,
mas as folhas não prendem os pássaros.

E o verde bem resiste.
Mesmo que tudo seja triste
e a incompreensão seja a Rainha,
na verdade o teu ser persiste
e é tão bom saber que existe
a esperança que em ti se aninha.

(Pedro/Pássaro Distante)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Se Não Te Mostro, a.k.a., Vôos de Pássaro

Se não te mostro a minha música
Serei um peixe fora de água,
Uma assinatura sem rúbrica,
Ou a lágrima de mágoa.

Se não te mostro os meus textos
Sou um escritor sem leitor,
Sem alma, chama ou vigor,
Ou uma roda sem eixos.

Se não te mostro a minha vida
Sou uma ave perdida
Ou, quiçá, flor sem cheiro.

Se não te mostro como sou
Não saberei por onde vou,
Não sou metade, nem... inteiro.

(Pássaro Distante, 2002)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Externato Lisbonense, o colégio centenário do Funchal, adquire algumas obras do grande poeta (e antigo aluno) Herberto Helder

Duas obras de Herberto Helder ("As Magias" e "Os Passos em Volta", edições da Assírio & Alvim) chegaram esta semana ao Externato Lisbonense, o Colégio privado centenário mais antigo do Funchal.

 As obras estão disponíveis para consulta de qualquer interessado, na Biblioteca Herberto Helder, bastando para o efeito contactar a Secretaria da Escola (291 22 05 53).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os Búzios (Jorge Fernando), Fado interpretado pela lindíssima Ana Moura

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=Sa8Ucd96KWo

I


Havia a solidão da pressa num olhar triste
Como s' os seus olhos fossem as portas do pranto
Sinal da cruz que persiste, os dedos contra o quebranto
E os búzios que a velha lançava sob um velho manto.

Ref.

À espreita está um grande amor, mas guarda segredo
Vazio tens o teu coração na ponta do medo
Vê como os búzios caíram, virados p'ra norte
Pois eu vou mexer no destino, vou mudar-te a sorte.

II

Havia um desespero intenso na sua voz
O quarto cheirava a incenso mais uns quantos pós
A velha agitava o lenço, dobrou, deu-lhe dois nós
E o seu pau de santo falou, usando-lhe a voz.

domingo, 29 de janeiro de 2012

TALVEZ NÃO SAIBAS - Joaquim Pessoa, Kátia Guerreiro, João Veiga, Rodrigo Serrão e... na parte III, Pássaro Distante

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=s8kDonP6XVI

I
Talvez não saibas
Mas dormes nos meus dedos
Aonde fazem ninho
as andorinhas.

E crescem frutos ruivos
e há segredos
Das mais pequenas coisas
Que são minhas.

Talvez tu não conheças
Mas existe
Um bosque de folhagem
permanente.

Aonde não te encontro
E fico triste
Mas só de te buscar
Fico contente.

Refrão

Oh meu Amor, quem sabe se tu
sabes
Sequer se em ti existe ou só
Demora
Ou sou como as palavras
Essas aves
Que cantam o teu nome a toda a hora

(bis)

II

Talvez não saibas
Mas digo que te amo
E construir um mar
à nossa casa.

Que é por ti que pergunto
E por ti chamo
Se a noite estende em mim
A tua asa.

Talvez não compreendas
Mas o vento
Anda a espalhar em ti
os meus recados.

E que há um pôr-do-sol
no pensamento
Quando os dias são azuis
e perfumados.

III (Contributo do Pássaro Distante)

Talvez não saibas
o que é felicidade
E respirar o som
da Maresia.

Que fujas do meu sonho
com vaidade
Na hora' em que te dou
minha poesia.

Talvez a silhueta
do teu rosto
Ignore este meu peito
amordaçado

Em busca duma vida
sem desgosto
Junto de quem deseje
ser amado.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

DESTE-ME TUDO O QUE TINHAS (João Monge/Filipe Pinto) - Fado interpretado pela divina Aldina Duarte

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=C1ZzG8moM-M

Deste-me tudo o que tinhas
Nos meus lençóis de cetim  (bis)
Mais a raiva quanto vinhas
Desencontrado de mim  (bis)

O meu corpo dependente
Bebia da tua mão
Naquela mistura quente
De desejo e perdição (bis)

Jurei que um dia mudava
Que de tudo era capaz (bis)
Já nem o sangue me lava
E tu nem raiva me dá (bis)

Parti os saltos na rua
Dei a vida pela vida
Mas agora olho a lua
E não me sinto perdida (bis)

Esqueci a tua morada
E tu nem raiva me dás (bis)
Agora que não me dás nada
Deste-me um pouco de paz (bis)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Último Desejo (Noel Rosa) e um novo valor musical brasileiro (Maira Freitas)

Nosso Amor que não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João.
Morre hoje sem foguete,
Sem retrato, sem bilhete,
Sem luar, sem violão.

Perto de você me calo,
Tudo penso, nada falo,
Tenho medo de chorar.
Nunca mais quero o seu beijo,
Mas meu último desejo
Você não pode negar:

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não:
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação.

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é uum botequim.
Que eu arruinei sua vida
E não mereço a comida
Que você guardou para mim.

---
A última versão deste lindíssimo poema de Noel Rosa foi interpretada por Maira Freitas, em dueto com Martinho da Vila, num CD dedicado por este cantor a temas Noel Rosa.

A voz de Maira Freitas é pujante e, para meu espanto, encontrei recentemente o seu próprio CD (produzido por Martnália, filha de Martinho da Vila) à venda, que muito apreciei ouvir.

Depois da grande perda musical que representou para mim o falecimento de Cesária Évora, o surgimento de Maira Freitas no panorama da música que consegue ouvir é um alento e uma esperança.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

NAS SOMBRAS DOS OLHOS

(Letra: Pássaro Distante; Música: Pedro Marques de Sousa)

I
Cobrem os olhos desejos magoados
Por contos guardados em lábios judeus.
Fitam os olhos tormentos passados,
Ímpetos negados pelos olhos teus.

Calas nos olhos sonhos adiados,
Abraços vedados, escombros de dor.
Gestos perdidos, enredos frustrados,
Lamentos tapados no teu coberto.~

Ref.

Caiem dos olhos queixumes salgados,
Desorientados por olhos ateus.
Gestos feridos e contrariados
Nos versos em branco das sombras de Deus.

II

Guardas nos olhos sons embaciados
De tempos passados em noites de amor:
Loucos gemidos, prazeres trocados,
Corpos saciados em leitos de flor.

Mostras, nos olhos, teu ar deplorado
Absorto, enjeitado, sem sombra de luz.
Cedes carinhos, automatizado,
Seguindo trajetos em torno da cruz.


Ref.

Caiem dos olhos queixumes salgados,
Desorientados por olhos ateus.
Gestos feridos e contrariados
Nos versos em branco das sombras de Deus.

III

Escondes os olhos nessas mãos marcadas,
Quiçá deformadas por tanto labor...
E, orgulhosas, passam madrugadas
Decerto acordadas, guardando rancor?

Fitas meus olhos, em jeito inocente,
Sorriso ausente, ensurdecedor...
Abres teu peito: teu corpo carente
Querendo, somente, gemidos e dor.



Ref.

Caiem dos olhos queixumes salgados,
Desorientados por olhos ateus.
Gestos feridos e contrariados
Nos versos em branco das sombras de Deus.

domingo, 27 de novembro de 2011

SONHADO MUNDO ILESO... NA CORRENTEZA DE UM MAR DE PECADOS (VI)

Nas noites em que a tristeza desampara
Teu peito, chorando o que o olhar não vê
Tens no lenço que aconchega tua cara
A certeza de ser "louco por você"!

Neste canto de justiça ao teu encanto,
Porque não sei descrever doutra maneira,
Largo as lágrimas derretidas no meu pranto
Espalhando-as pela tarde soalheir:

Entre a brisa que absorve o nosso cais
Misturei-as no meio da maresia
E agoratêm nomes imortais:
Todas juntas são saudade e poesia

sábado, 26 de novembro de 2011

SONHADO MUNDO ILESO... NA CORRENTEZA DE UM MAR DE PECADOS (V)

Nos círculos que dançaste no meu peito,
Cujos rastros sinto aqui tão bem cravados,
Frutificam as raízes do teu leito
Destes entes nunca antes bem amados.

Eu que andava já tão cheio de vazio
E via no horizonte uma barreira
Jão não sinto esse limite, nem o frio
Que acompanha estas "Noites da Madeira".

Estou sozinho, mas tão bem acompanhado
Pela linha que me liga ao coração
Do teu verso tão gentil e delicado:
Poesia que guiou a minha mão.

SONHADO MUNDO ILESO... NA CORRENTEZA DE UM MAR DE PECADOS (IV)

Já sentados no conversível vermelho,
Estacionados na gare do aeroporto
Este corpo, inesperadamente velho,
Não queria abandonar o teu conforto.

Despedimo-nos com um demorado abraço
E os rostos estampados de desgosto.
É que a vida não modifica o traço
Do destino, nem mesmo com "fogo posto".

Mesmo assim ofereci-te uma viagem
Para a terra do meu sul, do sol, do sal
Esperando por assomo de coragem
Qu' ilumine minha Ilha e Portugal.

Já nas escadas conduzido à aeronave,
Qual soldado que não olha para trás
Quando chega perto de hostil entrave
Eu sentia-te a dizer: "Amor... não vás!"

Foi então que olhei para tás, mas não te vi...
Era tempo de te encontrar no futuro...
Eu, que um dia muito amei tal qual sofri,
Saberia procurar-te pelo escuro...

SONHADO MUNDO ILESO... NA CORRENTEZA DE UM MAR DE PECADOS (III)

As saudades de ser muito bem tratado
E amado por uma doce Raínha
De olhar meigo e muito apaixonado:
Nessa noite senti mesmo que eras minha!

Numa mesa que saudou a nossa dança,
Cujas velas eram torres de marfim,
Abraçei-te, dediquei-te minha herança:
Meu piano, meu amor, meu bandolim.

Nossos olhos confirmavam as faíscas
Lançadas pelos espíritos, à vez,
E por palavras, mais ou menos ariscas,
Transmitidas no melhor do português.

Dei um beijo apaixonado nos teus lábios
Tão suave que exaltou a excitação,
Oscilando a própria árvore dos sábios
Cujo tronco é coberto de razão.

Os teus gestos demorados e carentes
Colocaram do avesso o coração
Nossos dedos, sempre muito persistentes,
Eram cúmplices d' infinita sensação.

Noite... sem saber dar-se por finda,
Aclamando parceiros de almofada,
Sussurrando, pela brisa: "Como és linda!
De causar inveja à própria madrugada."

Da janela da tua casa de praia
As estrelas brilham tão intensamente,
S' iluminam quando subo a tua saia...
E te sinto muito húmida e quente.

Nossos corpos, absorvidos no prazer
E teimosos por cada repetição,
Destemidos na vontade de viver,
De qu' as almas prestam subtil devoção.

A alvorada espreitou no canto do olho,
Quando os membros já se davam por vencidos
E os sonhos prolongavam ao sobrolho
Os momentos tão intensos já vividos.

Acordei-te com o cheiro do café
Espalhado na "Casa das Maresias",
Saboroso, mesmo mesmo que até
Exclamaste que mais nada pretendias.

Muitos dias neste amor contagiante
Partilhando caminhadas pela bruma
Um sorriso permanente no semblante...
Quem é que de ser feliz não se acostuma?

No regresso para o País mais a leste
Descansámos, por minutos, no jardim.
Tu disseste-me: «afinal sempre "Vieste"
E trouxeste todo o teu amor para mim.»

domingo, 20 de novembro de 2011

SONHADO MUNDO ILESO, NA CORRENTEZA DE UM MAR DE PECADOS...

I

Libertei-me de todos os compromissos
Que nos fazem sentir aves tão banais
E preenchem nossas faces sem sorrisos
Condenando os desejos especiais.

Transmiti-te meis créditos amorosos
Que guardava na gaveta do meu peito,
Mesmo aqueles, outrora tão saborosos,
Mas desenquadrados de qualquer conceito.

Tudo o que de bom tivesse era vazio,
(Pouco havia que pudesse cativar)
Como se um permanente calafrio
Me deixasse sem sorrir e sem sonhar.

Vida fora, vida dura, vida gasta,
Sem sentido, aos olhos da sã loucura.
Cada gesto tinha o peso da vergasta:
Chibatadas de sociedade impura.

Isolei-me das vergastas confundindo
Os meus sonhos com rombos de lucides
E em cada dor de alma fui sorrindo,
Aguardando por começar outra vez.

Quando o nada dominava o empírico
Veio a luz no fim do fundo da caverna.
Vi o mar derrotado pelo teu espírito:
Tua forma de combate muito terna.

A mão esquerda enlaçada ma direita:
Juntam forças numa mesma direccção.
Nessa estrada, ora larga ora estreita,
Não há nada perturbando a comunhão.

A distância fez a cama da grandeza
A tristeza molhou o vale dos lençóis.
Ma na rua em que vi tua natureza
Brilham estrelas aquecidas por dois sóis.

No meu corpo não havia já ferida
Que teimasse por não estar tão bem sarada,
Impedindo Santana de Parnaíba
De tornar-se na penúltima morada.

II

Fui contigo, de cabelo desvairado,
Ondulado, tal e qual os meus humores.
O semblante muito menos carregado
E na mala tuas predilectas flores.

O teu corpo, antes distante paisagem,
Brilhando em longínqua avenida,
Transportou, numa titânica coragem,
Um oásis eleito pra mar de vida.

Voei livre em redor do teu jardim.
Meu gorjeio respirava só poesia,
O teu bálsamo era uma flor de jasmim
Encharcando minhas penas de alegria.

E sem qualquer mordaça ou algum peso,
Condição "sine qua non" para ser feliz,
Mergulhámos no sonhado mundo ileso
E criámos nossa imortal raíz...

Ser feliz... e nada mais era preciso...
Nossas "guerras" tinham outro paladar:
Preenchidas no amor e no sorriso,
Nas doçuras e carinhos sem cessar.

Ser feliz... e nada mais faz diferença...
O presente com a distância na lembrança:
Quando o sonho reflectia uma crença
E a tristeza camuflava a esperança.

Ser feliz... é tudo o que podemos ser
Se olharmos para o que é essencial...
É que basta de uma vida a sofrer
E um dia atrás do outro, sempre igual.

(continua)